ObservaCampos: uma década de pesquisa-ação junto aos povos e territórios
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Por Aline Hernandez (UFRGS), colaboradora no PPGAS da Uergs, e Patrícia Binkowski (Uergs).
A urgência dos tempos que correm, com suas crises e colapsos extremos, exige abertura e ação interdisciplinar. O grupo de pesquisa-ação em políticas e ambiente ObservaCampos já aprendeu que é na confluência das diferentes áreas do conhecimento que aprendemos a inventar estratégias e tecnologias coletivas de enfrentamento aos problemas complexos. Como já disse o querido poeta dos rios, das plantas e dos bichos, Manoel de Barros "o tempo só anda de ida" anunciando sua irreversibilidade e convulsão.
Nesse caminho, 10 anos se passaram desde que a Profa. Dra. Patrícia Binkowski (UERGS) idealizou o grupo e convidou a Profa. Dra. Aline Hernandez (UFRGS) a compor junto. Muita gente foi se achegando, professoras/es pesquisadoras/es, estudantes de graduação e pós-graduação, ativistas de movimentos sociais, agitadores culturais e, nos últimos 5 anos, os povos originários e seus corpos-territórios. Sim, esses povos quando chegam trazem consigo uma etnia inteira, uma aldeia toda, com a força de quem veio antes, ancestrais e encantados…
Junto aos povos, fomos assumindo que nosso próprio grupo está em “processo de retomada”, ocupando novos territórios na Universidade, contracolonizando modos antigos de fazer pesquisa, de escrever textos acadêmicos e democratizar os conhecimentos. Foi preciso reconhecer os limites das teorias aprendidas, em sua maioria brancas e importadas e, em aliança, ir aprendendo com os povos, pois assim como o tempo, o conhecimento é caminho de ida.
Nossos velhos conhecimentos se esgarçam diante dos desafios e demandas que os povos e territórios nos trazem e vamos avançando, estudando as/os intelectuais indígenas, quilombolas, intelectuais do campo, das águas, das matas e florestas, lendo e escutando as feministas comunitárias territoriais e chamando essas pessoas para nossas ações, para aprender a fazer na práxis a “teoria” contra colonial. Com esse giro epistemológico assumimos que a Universidade pública é também um território em disputa e, portanto, em retomada.
A convite dos povos, especialmente da aldeia Kaingang Kóghun Mág e aldeia Mbyá-Guarani Tekoá Kurity, ambas em Canela/RS (região das Hortênsias) vamos realizando um programa de pesquisa e ação que olha atentamente para os conflitos ambientais, para os enclaves e processos de inteligência territorial, para as lutas em retomada por homologação de Terra Indígena e regularização fundiária em áreas protegidas, para os direitos dos povos e da natureza.
Vamos aprendendo, registrando e divulgando esse vasto acervo de tecnologias finais e ancestrais que os povos desenvolveram e desenvolvem para (r)existir a tantas violações e extermínios. São eles que mantém a floresta em pé, que sabem dos remédios da mata, que guardam as sementes, fazem da artesania peça única e irrepetível, não deixam morrer rituais, símbolos e língua, ainda que constantemente sejam alvejados pelos apelos coloniais e capitais.
Hoje nossos conhecimentos se tecem junto com as comunidades e juntos vamos analisando cenários, fazendo análise de conjuntura em torno às políticas ambientais e políticas de memória. Nosso trabalho tem se destacado no Sul do Brasil, principalmente no que tange ao fortalecimento do debate sobre a questão da terra e seus usos no Sul global, intrinsicamente ligada ao colonialismo, patriarcado e racismo. E junto com a terra vem o corpo-território, um só, feito por suas gentes em relação intrínseca com o que a “terra dá e com o que a terra quer” (Mestre Bispo, 2023).
Estamos vigilantes e atentas às dinâmicas de poder-potência dos povos, às lutas que se fazem no compasso dos tempos cosmológicos, guiados pelos ciclos da Terra, dos bichos, das sementes, do alimento, todos parentes que ajudam a encantar a vida, a vida dura, a vida que não se quis para os povos, mas que se faz força ativa por um presente e um “futuro ancestral” (Krenak, 2022). É com respeito e honra que agradecemos aos povos-territórios pela generosidade da partilha de conhecimentos e assumimos o compromisso de seguir trabalhando rumo a um presente mais justo e possível à existência humana na Terra.
Confira algumas de nossas produções junto aos povos:
- Cartelismo crítico*
- Manifesto da retomada*
- Livro para as infâncias “O caminho do Sol”
*Produtos da dissertação de mestrado intitulada “Cartografias da memória cosmopolítica Kaingang da retomada Kógūnh Mág, Canela/RS”, de autoria de Demétrio Ribeiro de Andrade Neto, sob orientação da professora Aline Reis Calvo Hernandez no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sustentabilidade (PPGAS).
Mais notícias
- Três pessoas estão reunidas em uma sala de escritório, sentadas ao redor de uma mesa redonda branca. Em primeiro plano, uma mulher de cabelos loiros aparece de costas, utilizando um notebook aberto sobre a mesa. À frente dela, um homem de cabelos escuros e barba curta, vestindo calça cinza, camisa clara e jaqueta bege, está sentado com as mãos apoiadas uma sobre a outra. Ao lado dele, uma mulher de cabelos castanhos, usando roupa escura, acompanha a conversa. Sobre a mesa há materiais de escritório, como canetas, marca-textos, mouse e um carimbo. Ao fundo, aparecem armários brancos e uma mochila verde apoiada no chão. O ambiente tem paredes claras e piso de madeira em padrão geométrico.
- Sala de aula com paredes claras e iluminação fluorescente no teto. À esquerda, há janelas amplas com grades, por onde entra luz natural. No fundo da sala, um quadro branco ocupa a parede, com um aparelho de ar-condicionado instalado acima. Cerca de 15 pessoas, entre jovens e adultos, estão sentadas em cadeiras escolares com prancheta, organizadas em círculo. A maioria segura folhas de papel e parece acompanhar uma leitura ou discussão. No centro do círculo, duas mulheres estão com maior destaque: uma fala com gestos das mãos, enquanto a outra observa um material. Os participantes vestem roupas casuais, como camisetas, calças jeans e tênis. Algumas mochilas estão apoiadas no chão ao lado das cadeiras.
- Cristiano Saratt de Alvarenga
- À esquerda, o símbolo da Estatuinte em dois tons de azul claro e verde limão. Ele é composto por uma espiral aberta ascendente que forma uma mandala; ao centro, tem quatro elementos frente a frente que representam pessoas em uma mesa para debaterem e também remetem a pilares arredondados visto de cima. À direita, lê-se, em verde escuro, Estatuinte da Uergs.